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quarta-feira, 26 de julho de 2023

Crítica: "Oppenheimer"

O diretor Christopher Nolan retorna às telonas com “Oppenheimer”, uma cinebiografia impactante e bombástica (com o perdão do trocadilho), filmada em IMAX, que chega para competir nos cinemas com a produção mais oposta possível: "Barbie – o filme".

A história de "Oppenheimer" é inspirada no livro biográfico de sucesso "Prometeu Americano: A História de J. Robert Oppenheimer", escrito por Kai Bird e Martin J. Sherwin,. Situado durante a Segunda Guerra Mundial, o filme segue a jornada de J. Robert Oppenheimer (interpretado por Cillian Murphy), um físico teórico da Universidade da Califórnia e diretor do Laboratório de Los Alamos durante o Projeto Manhattan - uma missão para conceber e construir as primeiras bombas atômicas. A trama se desenrola acompanhando o físico e um grupo de outros cientistas ao longo do processo de desenvolvimento da arma nuclear, que acabou por causar as trágicas consequências em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em 1945. Além do ator que interpreta o protagonista, o elenco é composto também por Emily Blunt, Matt Damon, Robert Downey Jr., Florence Pugh, Gary Oldman, Jack Quaid, Gustaf Skarsgård, Rami Malek e Kenneth Branagh.

Cillian Murphy entrega um protagonista profundo e denso.

Não é surpresa que o próprio Nolan tenha escrito o roteiro, adaptando a obra literária, uma vez que o filme já começa definindo para o espectador que este acompanhará a história em duas linhas temporais, paralelamente, e o que as diferenciará será a fotografia, uma em preto e branco, outra colorida. Este recurso é praticamente o mesmo utilizado em um de seus primeiros filmes, “Amnésia”, que foi responsável inclusive por catapultar sua carreira para Hollywood. Mas é fato que Nolan sabe muito bem utilizar este artifício e conduzir a história, inclusive entrelaçando as linhas narrativas para que se completem. Há ainda a história dentro da história, no melhor estilo “A Origem”, mas, novamente, nada que deixe a narrativa confusa, o diretor já sabe usar seus recursos com maestria. No entanto, no ímpeto de sua empolgação com a história e na ânsia por não cortar sequências, Nolan acaba se alongando um pouco mais do que poderia no terceiro ato, mas nada que tire o brilho do filme.

Robert Downey Jr. rouba a cena em "Oppenheimer".

A construção da narrativa da carreira de J. Robert Oppenheimer, de mero estudante do doutorado, passando para professor e depois líder do projeto que construiria a primeira bomba atômica, é muito bem elaborada. Enquanto o primeiro ato do filme mostra mais da vida pregressa do protagonista e sua intimidade, Nolan consegue construir junto ao espectador sua própria bomba-relógio no segundo ato, estruturando uma tensão constante que vai aumentando junto com a dos personagens, conforme a bomba atômica fica mais perto de “ser criada”. Mesmo sabendo do final que os livros de História contam, é impossível não sentir o estresse e a angústia crescente que a narrativa vai formulando nos personagens e, consequentemente, no espectador.

O diretor Christopher Nolan dirige seu protagonista.

A fotografia do filme, feita pelo holandês Hoyte Van Hoytema, parceiro de Nolan em suas três últimas produções (“Tenet”, “Dunkirk” e “Interestelar”), segue o mesmo estilo de tons frios e cores escuras das parcerias pregressas com o diretor, e tem seu auge nas imagens em preto e branco, que trazem uma sensação de recorte histórico, além de serem muito bem utilizadas com a iluminação cênica.

As atuações completam a ótima qualidade do filme, com Cillian Murphy entregando todas as emoções do físico J. Robert Oppenheimer por meio de um olhar penetrante e perturbador, que tranpassa ao público seus temores, orgulhos e os pensamentos rápidos que inundam a mente do protagonista. Outras atuações marcantes que sempre roubam a cena quando aparecem ficam por conta de Robert Downey Jr., Emily Blunt e Florence Pugh.

No mais, "Oppenheimer" é uma excelente biografia que se aventura pela vida e pelo psicológico do homem que ajudou a criar a bomba atômica, provocando reflexões sobre ética e moral, em um filme muito bem executado e que deve levar uma boa leva de prêmios na próxima temporada.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Crítica: “Guardiões da Galáxia Vol. 3”

É desafiador fazer um filme de equipe, mas se tem alguém em Hollywood que já provou que é capaz de cumprir o desafio e torná-lo um sucesso foi o produtor e diretor James Gun, que assina o roteiro e a direção da trilogia “Guardiões da Galáxia” da Marvel e de “O Esquadrão Suicida” da rival, DC.

Em “Guardiões da Galáxia Vol. 3”, o grupo de desajustados está de volta com Peter Quill (Chris Pratt) tentando superar a perda de Gamora (Zoe Saldana), após os eventos de “Vingadores: Guerra Infinita”, e uma profunda viagem ao passado de Rocket (Bradley Cooper). Desta vez, os Guardiões partem em uma missão para salvar não só a galáxia, mas também a própria equipe.

Como a sinopse já entrega, o filme gira praticamente em torno do personagem de Bradley Cooper. Conhecemos todo o passado do guaxinim membro da equipe e sua história de vida não só é desvendada, como todo o desenvolvimento de Rocket iniciado no primeiro filme tem seu ciclo concluído e encerrado de uma maneira envolvente e eficiente. Cooper brilha na dublagem ao lado de Linda Cardellini, que aqui dubla a lontra Lylla (integrante do passado de Rocket), mas também já atuou no Universo Marvel como a esposa do Gavião Arqueiro.


Apesar do ótimo desempenho de Cris Pratt, que já está mais que à vontade no papel do Senhor das Estrelas, seu personagem tem menos espaço para evolução, apesar de mais tempo de tela. Ainda assim, Peter Quill consegue registrar um progresso em sua história pessoal durante a projeção. Já os demais personagens cumprem seus papéis no filme enquanto alívios cômicos, suportes e membros da equipe que realmente têm um carinho entre si, mas seus desenvolvimentos são resumidos a poucas frases soltas por entre os 180 minutos de filme, tendo pouquíssimo avanço nesse aspecto. Aliás, o roteiro parece se arrastar por alguns momentos e até se contradizer em relação à premissa do filme, ao seu final, mas não deixa de trazer emoção e passar a união que há entre a equipe.


A tão aguardada participação do Adam Warlock de Will Poulter (de “Midsommar - O Mal Não Espera a Noite”), anunciada na cena pós-créditos de “Guardiões da Galáxia Vol. 2”, fica a desejar. O personagem é um incômodo constante à trama principal, sem um propósito claro para contribuir com a história. A sensação é que não havia lugar para ele na narrativa que James Gun queria contar, mas o roteirista teve que incluir porque foi uma promessa do filme anterior, apagando totalmente o talento do jovem ator que poderia ter contribuído muito mais para a produção. O Alto Evolucionário de Chukwudi Iwuji (da série “Pacificador”) é mais um que entra para a galeria da Marvel de vilões caricatos, excêntricos e esquecíveis deste universo, dando espaço para os Guardiões brilharem.

O tempo de comédia de James Gun funciona muito bem em seus roteiros, sabendo encaixar as piadas em momentos de descontração, apesar de este ser o filme mais dramático da trilogia dos Guardiões da Galáxia. A fotografia de Henry Braham (de “O Esquadrão Suicida”) está bem inspirada e junto com a equipe de efeitos especiais (que trabalhou arduamente aqui, entregando cenários e personagens realistas e incríveis), traz cenas de encher os olhos, que vão do belíssimo ao grotesco. No entanto, são nas sequências de ação que a dupla Braham e Gun acertam a mão em cheio, com coreografias bem ensaiadas, algumas com tomadas mais longas e noções de espaço e localização bem definidos, sempre em sincronia com a música, trazendo um espetáculo visual para quem está assistindo. Aliás, as músicas para o setlist do filme são mais lentas, remetendo ao tom em geral, e já não são tão marcantes quanto seus antecessores, mas cumprem seus papeis da mesma forma como já acostumamos nesta trilogia, e com uma pitada de nostalgia no final que acalenta o coração.


No mais, “Guardiões da Galáxia Vol 3” é um filme que traz emoção, é uma boa diversão, promete deixar um “quentinho no coração” dos fãs após sair da sala de cinema, mostrando a conclusão da saga da trupe de defensores do universo de maneira satisfatória e o final da participação de James Gun na colaboração com a Marvel, uma vez que o diretor está partindo para o gerenciamento do universo cinematográfico da rival, a DC.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Crítica: “Elvis”


            Um turbilhão de cores em uma montagem frenética como um verdadeiro show do Elvis deve ser. Assim se apresenta esta cinebiografia, que é claramente um recorte particular sob um ponto de vista específico, ao longo de suas duas horas e quarenta minutos de projeção.

O filme “Elvis” acompanha algumas décadas na vida de Elvis Presley (interpretado por Austin Butler) e sua relação com seu empresário, o Coronel Tom Parker (vivido por Tom Hanks), enquanto alça voo para o sucesso e se torna o artista que o mundo inteiro conheceu como o rei do rock.

O maestro desta grande orquestra é Baz Luhrmann, que tem em seu currículo “O Grande Gatsby”, “Austrália”, “Romeu + Julieta” e o sucesso “Moulin Rouge – Amor em Vermelho”. Luhrmann assina como corroterista e diretor do longa “Elvis”, trazendo sequências frenéticas do começo ao fim, com cenas entrecortadas por letreiros explicativos (e bem chamativos) o tempo todo, o que já é uma característica visual marcante do diretor, mas que neste caso também funciona dentro do contexto de “showbiz” em que a história está envolta.

Tom Hanks interpreta o Coronel Tom Parker.

Elvis ao lado de B.B. King, interpretado
por Kelvin Harrison Jr.


Aliás, o narrador do filme é o Coronel Tom Parker, interpretado por um Tom Hanks canastrão e bem vilanesco, que chega a ser um pouco caricato. A percepção da vida de Elvis Presley pelos olhos do Coronel ajuda a retratar o artista como uma figura muito mais bondosa e inocente do que se sabe, sendo também o amparo ideal para o roteiro não se aprofundar tanto na vida íntima de Presley ou em questões polêmicas como toda a relação de Elvis com a população negra norte-americana, assunto esse que aparece mais na primeira metade do filme e se perde na segunda metade. Afinal, Hanks explica desde o começo que vai contar “a história da lenda”, e assim o filme o faz ao colocar o artista como uma estrela brilhante que foi vítima das pessoas a sua volta, e focando no estrelato dele. A própria decadência dos últimos anos de Elvis é pincelada de maneira apressada ao final da produção, sem muito desenvolvimento.

Mas isso não tira a empolgação e o brilhantismo de uma obra que integra perfeitamente a trilha realizada por Elliott Wheeler junto às cenas montadas pelos editores Jonathan Redmond e Matt Villa (mesma equipe fez “O Grande Gatsby” com Luhrmann), em uma sintonia incrível que dá o ritmo que o filme clama. Outro ponto interessante da trilha é como Wheeler incorpora as músicas de Presley na trama com releituras feitas por outros músicos e também intercaladas com outras canções.

Austin Butler como Elvis Presley.

Austin Butler apresenta uma atuação exímia ao encarnar o rei do rock, entregando bastante emoção e uma interpretação que deve angariar prêmios ao ator, uma vez que teve apoio de uma maquiagem muito bem feita, assim como a que transforma Hanks no Coronel. Outro ponto muito positivo da obra é a fotografia detalhista e bem trabalhada de Mandy Walker (que contribuiu com o diretor em “Austrália”), ambientando as cenas nos momentos de alegria ao trazer saturação máxima de cores que o próprio Elvis pede, e mesmo em momentos de angústia ao descolorir a cena para trazer o peso que aquele instante deve ter. Tudo isso com algumas recriações de movimentos de câmera dos anos 1950 e 1960 ao retratar os shows do rei do rock de maneira fidedigna aos registros da época.

No mais, “Elvis” é uma cinebiografia leve, bem elaborada tecnicamente, que deve trazer diversão e bastante do frenesi que envolvia as apresentações de Presley, colocando o artista em um pedestal, sem nunca se aprofundar demais em sua intimidade ou em questões sociais mais complexas. É um bom filme para viver um pouco da época de ouro do rei do rock.




terça-feira, 29 de outubro de 2019

Análise do filme 'Quero ser John Malkovich' por suas objetivas


Em uma das primeiras colaborações entre o diretor Spike Jonze e o cinematógrafo Lance Acord, o filme “Quero ser John Malkovich” contém uma imersão profunda no consciente e subconsciente da mente humana por meio do texto de Charlie Kaufman. Para materializar os diferentes pontos de vista mostrados no roteiro, Acord utilizou lentes diferentes que dessem percepções visualmente distintas ao espectador.

Durante grande parte do filme, o cinematógrafo utiliza objetivas normais, mostrando uma estrutura narrativa usual para o público e empregada na sua grande maioria dos filmes. Além disso, não é necessária grande profundidade de campo, uma vez que a ação está mais concentrada nos diálogos

Outro ponto que também chamou minha atenção é a constante “câmera na mão”, na qual os realizadores optam por não utilizar uma steady cam em momentos nos quais o filme passa uma certa tensão ou seu protagonista está nervoso e inseguro, fazendo também com que o espectador sinta os efeitos desses sentimentos.

Entretanto, quando os personagens “entram” no corpo de John Malkovich, Acord utiliza lentes grande-angulares, para diferenciar o olhar, que neste ponto utiliza a câmera subjetiva. Junto com a utilização desta lente, os realizadores também colocam uma máscara arredondada na tela, tampando por completo os cantos. Esse efeito ajuda a esconder as partes mais contrastantes da distorção promovida pela grande-angular nos cantos da tela, além de passar a ideia de uma visão por meio dos olhos de uma pessoa (pelo formato arredondado, assim como a íris e a pupila, e também auxilia na ideia de que a visão do ser humano consegue manter um foco em objetos pontuais.

Em um segundo momento, ao simular a lembrança de um chimpanzé, também com a câmera subjetiva, o diretor de fotografia utiliza novamente uma grande-angular, mas abre mão do recurso da máscara nos cantos, deixando bem mais evidente as distorções que acontecem. Acredito que a decisão também proporciona uma interpretação precisa ao espectador: enquanto o chimpanzé está recordando algo do seu próprio ponto de vista, no outro caso, em que a câmera subjetiva é usada para a visão de Malkovich, há outra pessoa dentro de sua consciência. Ou seja, a máscara arredondada nos cantos reforça a ideia de que é alguém observando de dentro de uma “caixa”, com apenas um “furo” para observar o exterior, como se essa “caixa” fosse a cabeça do ator e o “furo” fosse seus olhos. Essa sensação é corroborada pelo áudio abafado durante essas sequências, como se fosse a ressonância da voz dentro do crânio, fortalecendo a sensação do espectador estar dentro de uma caixa.

Desta forma, acredito que a utilização da lente grande-angular foi um ótimo recurso para a narrativa do filme “Quero ser John Malkovich”, não só concedendo à produção um estilo único, como também auxiliando na construção da narrativa e na percepção da história como um todo pelo público.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Crítica ‘Coringa’



        A nova empreitada do diretor Todd Phillips (de “Se beber, não case”) traz às telas do cinema o arqui-inimigo do Batman em uma total reinvenção e uma história inédita no cinema e nas HQs. “Coringa” chegou ao público após vencer o Leão de Ouro no Festival de Veneza, ganhar as graças dos críticos e também se envolver em polêmicas devido à temática violenta.

        A produção conta a história de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix, de “Ela”), que trabalha como palhaço para uma agência de talentos e, toda semana, precisa comparecer a uma agente social, devido aos seus conhecidos problemas mentais. Após ser demitido, Fleck reage mal à gozação de três homens no metrô e uma série de acontecimentos iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne (Brett Cullen, de, veja só, “Batman: o cavaleiro das trevas ressurge”) é seu maior representante.

        O filme traz uma imersão profunda na mente do personagem. O público observa toda a história pela visão de Arthur, consequentemente encarando a sociedade de Gotham City por meio de seus olhos, criando uma empatia imediata com o personagem. É essa empatia que faz com que o espectador acompanhe e compreenda toda a trajetória que fez com que Fleck se torne o Coringa.  A produção é um grande estudo de personagem de 2h que culmina na criação do vilão em sua faceta mais sombria. O mergulho na consciência do de Fleck é tão intenso, que o roteiro brinca com a dualidade da realidade vivida por ele, um homem doente, em vários momentos. Nada é certo de fato, o que também representa um eco da versão das HQs do vilão, que não tem uma origem definida.

       A fotografia de Lawrence Sher (de “Godzilla II: rei dos monstros”) trabalha uma paleta de cores mais escuras, como o tema do filme pede, mesmo em momentos mais coloridos, e a trilha sonora instrumental de Hildur Guðnadóttir (de “Sicario: dia de soldado”) enche os ouvidos com a angústia do personagem, trazendo um casamento perfeito entre imagem e som. Inclusive, a Gotham City criada por Phillips e pelo cenografista Mark Friedberg (de "O espetacular Homem-Aranha 2 - A ameaça de Electro") se apresenta como um metrópole obscura e cada vez mais à beira do caos.

         Joaquin Phoenix está brilhante, trazendo várias facetas diferentes de um mesmo Coringa, todas colaborando para a evolução do personagem até encontrar seu verdadeiro “eu”. O ator transmite a ingenuidade de um homem otimista e todas as etapas de seu desenvolvimento, até chegar à ameaça de um vilão sanguinário. É possível notar sua entrega tanto emocional quanto fisicamente, uma vez que sua magreza contribui para o aspecto doentio do personagem. Uma das cenas iniciais mostra Arthur na janela de um ônibus olhando triste para uma cidade iluminada pelo sol. Já ao final da projeção, uma sequência muito parecida mostra um contraponto absoluto da cena citada antes, na qual podemos constatar toda a evolução que o personagem sofreu.

       A direção de Phillips é certeira ao dar liberdade a Phoenix para criar seu Coringa em frente à câmera, enquanto capta suas expressões e gestos em detalhes cruciais para o público sentir o personagem.

      “Coringa”, enfim, é um grande estudo de personagem que mostra uma versão violenta e sombria do vilão do Batman de forma completa, eficaz e muito bem desenvolvida.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Resenha da cinematografia do filme 'Batman'


A produção de “Batman”, filme do diretor Tim Burton lançado em 1989, fez um grande mistério sobre todo o material até seu lançamento. A última referência audiovisual do público sobre o homem-morcego era a série dos anos 1960, que trazia elementos muito coloridos e um Batman nada soturno. Essa mudança na visão do herói começou nas histórias em quadrinhos, com o lançamento da graphic novel “O cavaleiro das trevas”, de Frank Miller, em 1985, que apresentava uma versão violenta e obscura do Batman. “O fenômeno deflagrado por Miller não só resgatou a imagem do Morcego como ajudou a levantar a moral dos quadrinhos como um todo. Várias graphic novels depois, os executivos dos estúdios já estavam de orelha em pé com os lucros em potencial de um longa-metragem sério do nosso herói”, recorda o artigo de José Aguiar para o portal de cultura pop Omelete. A adesão a esse tom mais sombrio determinou totalmente a fotografia de Roger Pratt para o filme de 1989.

A sequência inicial, que acompanha uma câmera percorrendo internamente as voltas do logotipo do herói, como se fosse um labirinto, já demonstra ao espectador o estilo de fotografia que Pratt e Burton trarão à produção, com muitas sombras e uma paleta mais escura de cores. A cidade de Gotham City é apresentada como um amontoado de prédios imensos, sufocantes e com pouca iluminação, trazendo excesso de sombras pelas ruas e pontos de luz intercalados com áreas escuras, aumentando a tensão de se andar pela cidade à noite. Durante o dia, nunca há a predominância de sol. O filme traz dias nublados e cinzentos sempre. Essa iluminação da cidade casa com o design de produção, arte e figurino, trazendo o tom sombrio a Gotham e a presença de poucas cores sem saturação. Essa visão é corroborada pelo crítico Lucas Rigaud, do portal CineCinemania. “Em matéria visual, não há o que deva ser criticado em ‘Batman’ (além do pescoço desconfortável de Michael Keaton), já que a produção é um verdadeiro espetáculo de design gráfico, rendendo a equipe de direção de arte um Oscar em 1990, além de ser também um verdadeiro triunfo em matéria de fotografia, ao utilizar pouca saturação, efeitos louváveis de sombra e iluminação.”, escreve.



Para a jornalista Isabel Teles, do Guia Folha, da Folha de S. Paulo, “em uma Gotham violenta, de prédios altos e escuros que remetem ao expressionismo alemão, Batman aparece para limpar as ruas, até que se depara com o arqui-inimigo Coringa.” A influência do expressionismo alemão é constante na assinatura de Tim Burton. O visual alongado e deformado dos prédios de Gotham e o excesso de sombras e contrastes em uma iluminação unida a uma paleta de cores, muitas vezes, quase monocromática, traz a forte herança do movimento que se iniciou no cinema mudo alemão dos anos 1920. Em texto e pesquisa de Katia Kreutz sobre o expressionismo alemão para o site da Academia Internacional de Cinema, a autora define algumas características dos filmes desse movimento. Segundo ela, “a maior parte deles era gravada em estúdios, onde se podia usar iluminação e ângulos de câmera deliberadamente exagerados e dramáticos, para enfatizar algum aspecto particular dos personagens – medo, horror, dor, etc.”, coincidindo diretamente com os recursos usados por Burton e Pratt para filmar o Batman de Michael Keaton. “Com o posicionamento de câmera sempre de baixo para cima, ajudado pela fotografia esfumaçada e sombras que o deixam sempre na penumbra (decisão da direção para esconder as limitações da roupa que jamais o deixava virar o pescoço e, claro, os 1,77m de altura do ator) Batman transmite seriedade e é assustador como sempre imaginamos o personagem”, define o crítico Rodrigo Rodrigues, do portal Maxiverso.


De fato, a cinematografia de Pratt participa muito da construção do Batman. A silhueta escura, marcante e emblemática do homem-morcego é sempre destacada por um fundo mais claro, contribuindo também para o mistério que ronda a personagem. Além dos ângulos baixos, nota-se o cuidado para iluminar sempre determinadas partes do uniforme, de acordo com a cena. Uma saliência moldada na “sobrancelha” da máscara auxilia no aspecto animalesco do vigilante, uma vez que projeta sombra sobre os olhos, que tornariam a personagem mais humana se visíveis. Por outro lado, em cenas nas quais a fotógrafa Vicky Vale (interpretada por Kim Basinger) está conhecendo justamente o aspecto humano do Batman, as sombras tomam conta do personagem quase que por completo, destacando pontos de luz somente em seus olhos. “O visual de Batman mistura elementos típicos do cinema noir, com uma criminalidade pulsante (bem similar a filmes de gangsteres da década de 1930, o filme inclusive parece passado em tal década), com o visual fantástico, de sombras e cenários de angulações distorcidas, do expressionismo do cinema alemão, vide F.W. Murnau” define o Pablo Bazarello, do site Cinema Pop.


O recurso de esconder os olhos sob as sombras é utilizado em alguns momentos por vilões também, que têm suas visões tampadas pelas sombras das abas de seus chapéus. Nesse caso, acredito que o recurso diminua a empatia com personagens que acabamos de conhecer, não nos importando tanto que eles morram, além de aumentar o tom de ameaça.

Toda a iluminação das cenas reflete características da dualidade da personagem principal. Ambientes iluminados servem de pano de fundo para Bruce Wayne enquanto o excesso de sombras e a escuridão dão abrigo ao Batman. O Coringa é a personagem que mais destoa do tom geral do filme, por trazer algumas cores de maior destaque (apesar de trabalhadas com um pouco menos de saturação também), mas fornecem um contraste interessante por ser o louco daquele universo, que realmente não se encaixa. A apresentação dele é cuidadosamente criada, com sua silhueta andando pelas sombras, quase em direção à câmera, e recitando seu discurso de apresentação, até que ele finalmente se apresenta como Coringa sob um ponto de luz que revela sua aparência final e, com a câmera em contra-plongé, torna-se um gigante ameaçador sobre sua presa.


Aliás, Pratt e Burton brincam muito com silhuetas durante a produção. O tempo todo mostrando sombras de personagens ou suas formas contra a luz, aumentando a tensão, o mistério e o perigo que envolvem o filme, quase como um thriller mais brando.


A sequência final com a luta entre Batman e Coringa no topo de uma catedral nada iluminada traz sua iluminação essencialmente oriunda de holofotes se movimentando ao fundo, que culminam em uma catarse de silhuetas e momentos típicos de suspense, tudo muito bem trabalhado e colaborando para a tensão do terceiro ato, até sua resolução.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Resenha da cinematografia do filme 'Aquarius'


O filme “Aquarius” me chamou bastante a atenção pela sua fotografia, feita a quatro mãos por Pedro Sotero e Fabrício Tadeu. A maneira como ela é cuidadosamente trabalhada e conversa com o espectador é incrível, sendo mais um elemento que ajuda a conduzir as emoções passadas pelo diretor Kleber Mendonça Filho. A produção, por si só, já considero como uma linda poesia cinematográfica e acredito que sua bela fotografia contribui muito para isso, a começar por vários planos abertos, que mostram a arquitetura do Recife, onde prédios antigos se tornam pequenos e ficam comprimidos entre arranha-céus modernos.

Na primeira parte do filme, que se passa nos anos 1970, há uma predominância de um filtro amarelado na fotografia, o que me remeteu a um estilo mais voltado à sépia, usada para indicar imagens mais antigas. Esse recurso é muito eficiente porque, não só estabelece que as primeiras sequências acontecem todas no passado, como traz um excesso de uma cor mais quente aos olhos do espectador, demonstrando momentos felizes, que transbordam amor e carinho entre as personagens, interagindo em família.

Nas cenas das lembranças de tia Lúcia, um excesso de branco e luzes fortes constroem o tom certo para o pensamento, destacando apenas as cores dos dois corpos em cena, que é o ponto central de sua lembrança.


Os takes das praias trazem ainda mais beleza ao filme (já no tempo presente da história), com um belo contraste entre cores vibrantes, do verde da vegetação ao amarelo da areia junto com o verde azulado do mar.

As cenas dentro do apartamento de Clara são sempre bem iluminadas, respeitando a direção da luz “natural” que entraria pelo imóvel. Os vários ângulos que mostram planos dentro e fora do apartamento no mesmo quadro, mostrando situações distintas acontecendo em ambos os ambientes, junto aos movimentos de câmera bem construídos, criando planos-sequências de dentro para fora do apartamento e vice-versa, também me conquistaram.

Uma cena em especial me chamou a atenção. Clara está beijando um homem dentro de um carro. Apesar de ele estar sentado no lado do motorista, a cena começa com ele totalmente inclinado a beijando, ambos no lado do assento do passageiro, onde uma luz vermelha no fundo predomina, evocando paixão e calor. Ao descobrir que a personagem de Sônia Braga fez uma cirurgia de mama e perder o interesse nela, o homem volta à posição do banco do motorista, ficando na penumbra. Essa falta de iluminação nele reforça que ele perdeu o interesse na personagem e não compartilha mais o calor e paixão dela, que ficou somente por detrás do banco do passageiro.

As sequências dentro do apartamento de Clara sempre trazem cores quentes, bem iluminadas, demonstrando conforto e acalento em momentos mais intimistas e agradáveis, em total contraste às cores frias presentes nos corredores escuros e vazios.

Uma outra sequência também me chamou a atenção. A personagem vê, de dentro do seu apartamento e com a câmera acompanhando seu olhar, pessoas entrando no prédio. Conforme o espectador ouve o barulhos de um grupo subindo as escadas e iniciando uma festa no apartamento acima do pertencente a Clara, a câmera acompanha o “barulho” enquanto filma as paredes internas do apartamento onde está.

Em resumo, esses são alguns pontos que me chamaram muito a atenção e me fizeram apreciar a cinematografia cuidadosamente construída para o filme “Aquarius”.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Crítica: 'Mulher-Maravilha'

Mulher-Maravilha” é o quarto filme do universo cinematográfico da DC no cinema, seguido de “Homem de Aço”, “Batman vs. Superman: a origem da justiça” e “Esquadrão Suicida”, e é o primeiro que realmente faz a nova linha temporal construída pelo selo por trás da Liga da Justiça decolar de vez.

Na história, Diana (Gal Gadot, de “Batman vs. Superman”) cresceu aprendendo a batalhar na ilha secreta de Themyscira, onde as amazonas vivem longe da humanidade. Quando o piloto militar Steve Trevor (Chris Pine, de “Star Trek”) acidentalmente cai na ilha, a futura Mulher-Maravilha tem conhecimento sobre uma tal guerra mundial, e resolve partir junto com o soldado para lutar no campo de batalha.

O roteiro assinado por Allan Heinberg (que escreveu para as séries “The Catch” e “Grey's Anatomy”) a partir do argumento criado por Jason Fuchs e Zack Snyder (diretor de “Batman vs. Superman”) tem uma história bem definida, trazendo todos os famosos itens da Mulher-Maravilha, entre o laço da verdade, os braceletes, a espada e o escudo, de maneira condizente com aquele universo e com finalidades bem definidas.

O espectador acompanha a história junto a Diana, sendo impossível não se envolver com a pureza da heroína diante daquele “mundo dos homens”. A diretora Patty Jenkins (do excelente “Monster – Desejo Assassino”) trabalha junto com o roteiro um tema forte como a igualdade de gênero, sem a necessidade de argumentos feministas, uma vez que Diana é uma mulher que nasceu e cresceu em uma sociedade só de mulheres e, para ela, simplesmente não há motivos para ser submissa ou não ter os mesmos direitos que os homens (e há?). O debate pelos direitos iguais surge naturalmente por meio da ingenuidade da personagem. É claro que a personalidade da protagonista colabora para o seu posicionamento diante das situações. Já na ilha de Themyscira, Diana enfrentava decisões de sua mãe, maior autoridade do local, e na Inglaterra torna a contestar ordens de generais superiores a Steve Trevor.

É essa ingenuidade da personagem, aliás, que contribui também para que este seja o filme com o tom mais leve e descontraído do universo DC até então, sem que o humor surja de maneira forçada. Gadot está bem à vontade no papel da personagem, sendo essa a segunda vez que a interpreta, trazendo carisma, paixão e conquistando o espectador com o forte caráter da Mulher-Maravilha. Pine faz um ótimo trabalho como Steve Trevor e sua química com Gadot funciona na tela. Os demais integrantes do grupo que segue na aventura junto com Diana e Steve (formado pelos atores Saïd Taghmaoui como Sameer, Ewen Bremner como Charlie e Eugene Brave Rock como The Chief) são engraçados e servem ao seu propósito, mas nunca chegam a ser realmente desenvolvidos. As amazonas, em especial Connie Nielsen como a rainha Hippolyta e Robin Wright como Antíope, acabam tendo pouco tempo de tela, mas dominam as cenas em que aparecem.

Robin Wright lidera as amazonas em batalha como Antíope.
Aliás, o estilo de luta das amazonas é único, bem desenvolvido e muito bonito de se assistir. No entanto, apesar das câmeras lentas durante várias das cenas de batalha ajudarem a demonstrar detalhadamente os belos movimentos de luta que talvez passassem despercebidos a olho nu, o recurso é usado de forma exaustiva e chega a incomodar um pouco a certa altura.

Outro método utilizado por Jenkins para demonstrar a incrível rapidez de Diana são os cortes com a personagem em diferentes lugares, repentinamente, de uma cena para a sua conseguinte. O conceito é interessante, mas fica estranho aos olhos do espectador durante a projeção, assemelhando-se mais a um erro de montagem do que a um recurso do filme propriamente.

As sequências no campo de batalha são muito bem realizadas e conseguem demonstrar ao público várias das habilidades da Mulher-Maravilha, que por sua vez revela todo o seu potencial na batalha final da produção, quando a personagem finalmente descobre quem é e mostra sua evolução durante a história.

Tudo isso ainda ganha uma belíssima moldura por meio da maravilhosa (desculpe o trocadilho) fotografia de Matthew Jensen (do ótimo “Poder sem limites"), principalmente na ilha de Themyscira, que se torna um verdadeiro paraíso, e da trilha sonora, aqui assinada por Rupert Gregson-Williams (do oscarizado “Até o último homem”), mas que tem seu auge ao som do tema da personagem, criado por Junkie XL e Hans Zimmer para “Batman vs. Superman”. Ponto positivo também para Lindy Hemming, responsável pela ótima reconstrução do figurino de época da Europa da década de 1910, e a criação do figurino das amazonas, que remete à Grécia antiga e as caracterizam como guerreiras que são.

“Mulher-Maravilha” é um ótimo filme que traz mais esperança ao universo DC que o símbolo no uniforme do Superman. Assim como ela aparece para salvar o dia no filme de confronto dos heróis, sua aventura solo chega para resgatar o estúdio de uma avalanche de críticas negativas.

Saïd Taghmaoui como Sameer, Chris Pine como Steve Trevor, Gal Gadot como Diana Prince, Eugene Brave Rock como The Chief e Ewen Bremner como Charlie. Pose para a foto que já havíamos visto em "Batman vs. Superman".

P.S.: Ah sim, e a vilã Dra. Veneno, infelizmente, acaba sendo desperdiçada na produção, sem desenvolvimento algum de uma personagem que parecia ser bem interessante.




quarta-feira, 24 de maio de 2017

Crítica: 'Corra!'


Se você tem medo de assombrações, pode ficar tranquilo, pois “Corra!” (“Get out”, no original), é um suspense psicológico sem nenhum elemento vindo do além. Por outro lado, o filme dirigido e escrito por Jordan Peele (estreante na cadeira de diretor), traz ao público não só momentos de tensão do jeito que os amantes do estilo adoram, como também uma forte crítica social e racial.

A premissa é simples: namorado viaja para o interior para conhecer a família da namorada. No entanto, Cris (Daniel Kaluuya, de “Sicario: terra de ninguém”) é um jovem negro que teme pela reação dos pais de sua namorada caucasiana, Rose (Allison Williams, da série “Girls”), ao se depararem com a diferença racial entre o casal. E é durante esse encontro que algumas atitudes e reações começam a parecer estranhas para Cris.

O roteiro da produção é ótimo. Peele consegue entregar uma história completa, sem deixar pontas soltas, e na qual tudo tem seu propósito para contribuir com a narrativa. Como um bom suspense psicológico, o roteiro consegue prender a atenção do público dentro de seus 104 minutos de projeção, entregando momentos que pegam o espectador de surpresa em sustos nada óbvios. Há toda uma sequência mais gore durante a produção, mas que parece natural à trama, na altura em que se inicia.

Cris encontra os pais de sua namorada, mas algo estranho está acontecendo naquela casa.

 “Corra!” é, antes de tudo, um exemplo de “como se fazer um bom filme”. A direção de Peele também está completa, sem muitos pontos altos, mas também sem pontos baixos. O elenco está afiado e entrega boas atuações, com personagens convincentes, completos e com propósitos bem definidos durante a trama. A fotografia do filme (assinada por Toby Oliver) conversa com o gênero naturalmente e a produção de arte acerta na escolha da paleta de cores, principalmente para o figurino (assinado por Nadine Haders), que também conversa naturalmente com a trama.

No entanto, a produção é tão bem montada e bem escrita, que é inevitável não chegar a prever o que está acontecendo antes mesmo da grande revelação, inclusive com dicas dadas em falas de alguns personagens, o que poderia ser descartado em benefício da descoberta de toda a trama que ocorre no ato final.

Para todos que quiserem aproveitar um bom filme, com uma boa história, que realiza críticas sociais sem torná-las forçadas, “Corra!” é uma ótima pedida. Você levará alguns sustos no caminho, mas a produção vale a pena mesmo para os que não são fãs de suspense.


Ei, já que você está aqui, aproveite para conferir minha crítica sobre "La La Land - Cantando estações" também!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Crítica: 'La La Land - Cantando estações'

Uma poética homenagem ao cinema e aos antigos musicais, envolta em meio a muito jazz e um romance ao melhor estilo de Hollywood. Essa é a proposta do musical cotado como um dos favoritos ao Oscar 2017, “La La Land – Cantando estações”.

A história acompanha a atriz Mia (Emma Stone, de “Birdman” e “Magia ao Luar”), que aspira conseguir seu grande papel de destaque na indústria cinematográfica, e o músico Sebastian (Ryan Gosling, de “Dois Caras Legais” e “A Grande Aposta”), que tem o sonho de abrir seu próprio clube de jazz. Os dois se encontram por acaso e acabam se envolvendo em um romance puro, por entre as ruas de Los Angeles.

O diretor e roteirista Damien Chazelle (dos ótimos “Whiplash - Em Busca da Perfeição” e “Rua Cloverfield, 10”, apenas roteirista nesse último) consegue não só trazer um belo romance entre os protagonistas, como realiza uma incrível homenagem de duas horas aos antigos musicais de Hollywood, em um roteiro bastante metalinguístico, dando forma a emoções por meio de músicas e seguimentos de dança inesquecíveis e cheios de referências.

É impossível não lembrar títulos como “Cantando na Chuva” ou “Sinfonia em Paris” durante as longas sequências e planos-sequências que o diretor usa nos números musicais, além das coreografias realizadas com sapateado, estilo clássico desse tipo de filme. As emoções ganham vida não só com danças e canções, mas com algumas cenas lúdicas, como a do observatório, durante a apreciação das estrelas pelo casal protagonista, em um seguimento belíssimo e poético.


Apesar do título em português, as estações do ano pouco importam em seu sentido literal aqui (mesmo porque não há grande diferença de uma para outra em Los Angeles), mas fazem um paralelo aos estágios do relacionamento do casal. Quanto mais “quente” a estação, mais envolvidos Sebastian e Mia estão, e quanto mais “fria”, mais longe um do outro se encontram.

Ryan Gosling e Emma Stone estão ótimos em seus papéis. Além de uma química perfeita entre o casal, a homenagem à sétima arte vem também na atuação, seja com algumas reações propositalmente exageradas, seja com toda a forte expressão física das sequências musicais.

A fotografia de “La La Land” é tão romântica quanto o filme, brincando com uma paleta de cores intensas o tempo todo e trazendo ótimos planos do entardecer de Los Angeles. O diretor de fotografia Linus Sandgren (de “Joy: O Nome do Sucesso” e “Trapaça”) faz um excelente trabalho em parceria com o cenografista David Wasco (de “Bastardos Inglórios” e “Colateral”), que por sua vez abusa das cores vivas para trazer o lúdico ao dia a dia dos personagens.

“La La Land – Cantando estações” é uma excelente obra da sétima arte que homenageia o próprio cinema da maneira mais bela e poética possível. Se vai ganhar algum Oscar? É muito provável. Mas a única certeza que levamos é a de que merece, enquanto obra de arte e enquanto homenagem metaliguística.

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Confira também as críticas de "Rua Cloverfield, 10", escrito por Damien Chazelle, e do brasileiro "Aquarius".

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Crítica: 'Aquarius'

"Aquarius" não é um filme sobre o edifício Aquarius, por mais que tudo indique que o prédio será a atração principal do longa de Kleber Mendonça Filho (de "O som ao redor"). É um filme sobre Clara (Sônia Braga, a eterna Gabriela da versão original da novela homônima).

A história acompanha a vida da jornalista aposentada vivida por Braga. Viúva e mãe de três, Clara mora em um apartamento à beira mar, no edifício Aquarius, no Recife, onde criou seus filhos e mantém lembranças de uma vida inteira. A trama principal começa a se desenrolar quando uma construtora chega ao prédio de Clara querendo derrubá-lo e construir um novo edifício no lugar. A empresa consegue adquirir quase todos os apartamentos, menos o dela. Começa então a batalha da personagem de Braga contra a construtora.

Parece ser sobre o Aquarius mesmo, não é? Mas o prédio em si é um reflexo da personagem principal, sendo os episódios que se passam com a construção, interessantes paralelos com os acontecimentos da vida de Clara e com sua personalidade. Esse é um dos motivos porque digo que o filme é sobre ela. Toda a narrativa ajuda a construir a personalidade de Clara ao espectador, mesmo que algumas passagens sejam irrelevantes para a trama principal, mas ainda assim têm seu propósito ao exaltar características da personagem, mesmo que sutilmente. Para os mais impacientes, isso pode ser um problema, pois o filme chega a quase duas horas e meia de projeção, com partes que podem parecer se arrastar, mas nada que a incrível interpretação de Sônia Braga e o carisma de Clara não compensem. Ver a atriz tão à vontade na pele da personagem nos faz querer assistir a mais e acompanhar sua história.

São todos esses detalhes que fazem do roteiro e da direção de Kleber Mendonça Filho uma produção tão poética, trazendo retratos da bruta e dura realidade em que vivemos, como a luta entre classes e a expansão imobiliária agressiva, junto à delicadeza com a qual trata assuntos difíceis, como o câncer e a sexualidade na velhice.


A fotografia a quatro mãos de Pedro Sotero e Fabrício Tadeu (ambos também de "O som ao redor"), é muito bonita e contribui para a poesia do longa, trazendo vários planos abertos, que mostram a arquitetura da cidade, onde prédios antigos se tornam pequenos e ficam comprimidos entre arranha-céus modernos. A própria abertura do filme, com fotos antigas, ajudam a traçar este paralelo com as imagens atuais de Recife, mostradas ao longo do filme. Nos planos mais intimistas, a câmera também passeia e fica à vontade no pequeno apartamento de Clara, sempre em tons claros e quentes, mostrando a paz e o aconchego do refúgio da personagem.

A direção de arte e a cenografia, ambas assinadas por Thales Junqueira (de "Que horas ela volta?") e Juliano Dornelles (repetindo a parceria com o diretor de "O som ao redor"), ganha pontos na reconstrução do apartamento dos anos 1980 com perfeição, e trazem uma nova roupagem ao mesmo lugar dos dias atuais, preservando móveis e objetos centrais que conservam as lembranças e a nostalgia proporcionadas pelo local.

No mais, "Aquarius" é um filme para se apreciar aos poucos, não só acompanhando o universo de sua personagem central, Clara, mas também mergulhando em sua intimidade, e conhecendo cada detalhe, cada pensamento e cada característica de seu exterior e interior.

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Confira as críticas de outros filmes brasileiros que também me conquistaram: a comédia "De pernas para o ar"  e o drama "Salve Geral".

domingo, 1 de maio de 2016

Velozes e Furiosas: críticas rápidas de 'Guerra Civil', 'Mogli' e 'Rua Cloverfield'

Assisti recentemente a três filmes que me despertaram bastante o interesse e me instigaram a escrever sobre eles. No entanto, ansioso como sou, a vontade é redigir todas as minhas impressões de uma só vez e assim acabo me atrapalhando e misturando as bolas. Resolvi então fazer este novo quadro no blog, pra comentar rapidamente sobre vários filmes em um mesmo post (as vezes não tão rápidas,  como você perceberá na última). As análises não serão tão aprofundadas, mas farei o meu melhor para o texto não ficar tão superficial e dispensável a você, leitor. E o título é só uma referência ao filme "Velozes e furiosos" mesmo, não serei tão raivoso com as produções assim. ;-)


Crítica rápida: "Mogli - O menino lobo"

Na era dos reboots, é sempre preciso apostar em um diferencial, e os estúdios Disney colocaram todas as fichas nas versões live-action (com atores reais em tela) de seus clássicos animados. Neste "Mogli - O menino lobo", o grande trunfo ao recontar a história do garoto criado na selva é a computação gráfica realista feita para os animais, e precisamos tirar o chapéu para os responsáveis, pois os efeitos estão incríveis. É um ótimo filme, que apostou em uma história já abraçada pelo público no longa animado de 1967 e que traz um elenco estelar nas vozes de personagens já consagrados. No meu caso, assisti ao filme dublado, e o elenco tupiniquim não deixou a desejar. Marcos Palmeira, Júlia Lemmertz, Thiago Lacerda, Tiago Abravanel, Dan Stulbach e Alinne Moraes estão ótimos e integram naturalmente a voz a seus personagens. O estreante Neel Sethi, que interpreta Mogli, já conquista o público logo de cara e interage bem com os personagens digitais. A bela fotografia Bill Pope dá todo o tom da trama e casa bem com a pós-produção digital, mas já era de se esperar pelo currículo do diretor de fotografia (que tem "MIB 3", "Scott Pilgrim contra o mundo" e "The Spirit", por exemplo). No mais, o diretor Jon Favreau fez um trabalho muito bom, mas talvez nada excepcional, por apostar no certo e na nostalgia e não arriscar tanto, o que não desmerece em nada o filme.


Crítica rápida: "Rua Cloverfield, 10"

E quando a gente menos espera, BOOM! Vem a Bad Robot (produtora do consagrado diretor de "Star Trek" E "Star Wars", J. J. Abrams) e tira um filme pronto do bolso, assim, do nada! Pois é, ninguém estava sabendo da produção desta "continuação" do filme de 2008, "Cloverfield - Monstro", e repentinamente, o diretor estreante Dan Trachtenberg traz um thriller incrível, com a mesma pegada do "quanto menos você souber, melhor" que o filme antecessor propôs. A produção é quase teatral, restringindo a maior parte do filme em um conjunto de cenários apenas com os três principais (e praticamente únicos, com exceção de alguns figurantes rápidos) atores do elenco. Aliás, todos em ótimas atuações, com destaque para John Goodman (de "Trumbo: lista negra"), que entrega uma personagem dúbia, que vai surpreender o espectador durante todo o filme. Sem desmerecer, claro, as também intensas atuações de  Mary Elizabeth Winstead (de "Scott Pilgrim contra o mundo") e John Gallagher Jr. (da série "The Newsroom"). Em um espaço tão restrito, Trachtenberg encontra ângulos e posicionamentos de câmera que conversam com o filme e com as personagens, fazendo com que o público mergulhe de cabeça na história, sempre em sintonia com a excelente fotografia Jeff Cutter (de "A órfã"), que também auxilia nos tons de ambiguidade e conversa com os sentimentos e sensações passadas pelos atores. Um excelente filme e uma ótima surpresa para os apreciadores da sétima arte.


Crítica rápida: "Capitão América: guerra civil"

Sou uma pessoa muuuuuito suspeita para falar de "Capitão América: guerra civil", pois quem me conhece ou já leu um pouquinho do meu blog, principalmente nos últimos tempos, vai perceber que sou um fã inveterado da DC, apesar de admitir que a casa do Batman tem cometido alguns erros complicados em relação às escolhas para seus filmes junto à Warner Bros. Mas enfim, estamos aqui pra falar de "Vingadores 2,5", como alguns estavam pregando, devido aos vários heróis do Universo Marvel que aparecem. Bom, já começamos por aí: definitivamente não é um novo "Vingadores", mas apesar do foco ficar sim no Capitão América, outro herói tem tanta relevância quanto o sentinela da liberdade para o filme, o Homem de Ferro (aqui eu diria que acredito que o filme seria melhor chamado de "Homem de Ferro e Capitão América: guerra civil", mas não vou comentar isso para que não pensem que estou fazendo paralelo a um certo filme de confronto de super-heróis, que você pode ler minha crítica clicando aqui). O filme funciona, o roteiro é redondo, tudo tem um propósito e não há um desgaste inútil dos heróis. Todos que participam colaboram de alguma forma, mesmo que não aproveitados em toda sua potencialidade, afinal, o Capitão América ainda está no título e é nele quem devemos focar. No entanto, os diretores irmãos Joe e Anthony Russo (de "Capitão América: Soldado Invernal") talvez errem um pouco a mão no ritmo da trama. Momentos de maior dramaticidade acabam passando rapidamente pela tela, enquanto outras passagens que poderiam ser um pouco mais ágeis se arrastam por alguns minutos extras. Mas o clima político que envolve toda a história é bem conduzido pelos Russo, assim como as cenas de ação que trazem vigor e um espetáculo à parte ao filme.

O Barão Zemo, um dos vilões do filme, é desenvolvido de forma intrigante e desperta o interesse do público. De fato, ele tem certo destaque, mas a personagem não tem um desenvolvimento tão satisfatório, deixando sua ascensão para a próxima película. Outra cartada gasta pela Marvel é a escalação de Martin Freeman para um papel dispensável neste filme. Quanto aos principais, o arco da personagem de Robert Downey Jr. (depois de tantas produções, preciso falar que ele é o Homem de Ferro?) acaba sendo melhor desenvolvido e mais interessante que o do próprio Capitão América (só pra constar, é o Cris Evans), isso porque todo o desenvolvimento da personagem de Evans é feito logo no início do filme e ele se mantém sem grande evolução até o final. A fotografia de Trent Opaloch é satisfatória, seguindo o padrão dos filmes Marvel e até mais leve do que o último "Capitão América: Soldado Invernal", o qual ele também assinou a direção dessa área.


A apresentação dos novos integrantes do Universo Cinematográfico da Marvel acontece de maneira natural e integrada à trama. O Homem-Aranha faz jus ao título de espetacular, com Tom Holland bem à vontade no papel do amigão da vizinhança,  e cria uma dinâmica interessante e funcional com o Homem de Ferro. Chadwick Boseman encarna pela primeira vez o Pantera Negra em uma subtrama simples e integrada à história principal, e entrega uma boa atuação, mostrando uma personagem completa e despertando a curiosidade do espectador em conhecer mais sobre seu país e sua origem. A caracterização e o estilo de luta do Pantera Negra são shows à parte, apesar de pouco explorados pois, afinal, ainda é um filme do Capitão América.

Enfim, "Guerra Civil" entrega um filme muito bom, que mostra o Universo Marvel mais integrado do que nunca fora das produções de títulos "Vingadores", mas não tem medo de admitir que é parte  de uma história muito maior, deixando alguns arcos tão abertos para produções vindouras, que o filme acaba não encerrando seu principal argumento e deixa a sensação de que  vai ter um "Gurra Civil 2" vindo por aí.

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