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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Resenha da cinematografia do filme 'Aquarius'


O filme “Aquarius” me chamou bastante a atenção pela sua fotografia, feita a quatro mãos por Pedro Sotero e Fabrício Tadeu. A maneira como ela é cuidadosamente trabalhada e conversa com o espectador é incrível, sendo mais um elemento que ajuda a conduzir as emoções passadas pelo diretor Kleber Mendonça Filho. A produção, por si só, já considero como uma linda poesia cinematográfica e acredito que sua bela fotografia contribui muito para isso, a começar por vários planos abertos, que mostram a arquitetura do Recife, onde prédios antigos se tornam pequenos e ficam comprimidos entre arranha-céus modernos.

Na primeira parte do filme, que se passa nos anos 1970, há uma predominância de um filtro amarelado na fotografia, o que me remeteu a um estilo mais voltado à sépia, usada para indicar imagens mais antigas. Esse recurso é muito eficiente porque, não só estabelece que as primeiras sequências acontecem todas no passado, como traz um excesso de uma cor mais quente aos olhos do espectador, demonstrando momentos felizes, que transbordam amor e carinho entre as personagens, interagindo em família.

Nas cenas das lembranças de tia Lúcia, um excesso de branco e luzes fortes constroem o tom certo para o pensamento, destacando apenas as cores dos dois corpos em cena, que é o ponto central de sua lembrança.


Os takes das praias trazem ainda mais beleza ao filme (já no tempo presente da história), com um belo contraste entre cores vibrantes, do verde da vegetação ao amarelo da areia junto com o verde azulado do mar.

As cenas dentro do apartamento de Clara são sempre bem iluminadas, respeitando a direção da luz “natural” que entraria pelo imóvel. Os vários ângulos que mostram planos dentro e fora do apartamento no mesmo quadro, mostrando situações distintas acontecendo em ambos os ambientes, junto aos movimentos de câmera bem construídos, criando planos-sequências de dentro para fora do apartamento e vice-versa, também me conquistaram.

Uma cena em especial me chamou a atenção. Clara está beijando um homem dentro de um carro. Apesar de ele estar sentado no lado do motorista, a cena começa com ele totalmente inclinado a beijando, ambos no lado do assento do passageiro, onde uma luz vermelha no fundo predomina, evocando paixão e calor. Ao descobrir que a personagem de Sônia Braga fez uma cirurgia de mama e perder o interesse nela, o homem volta à posição do banco do motorista, ficando na penumbra. Essa falta de iluminação nele reforça que ele perdeu o interesse na personagem e não compartilha mais o calor e paixão dela, que ficou somente por detrás do banco do passageiro.

As sequências dentro do apartamento de Clara sempre trazem cores quentes, bem iluminadas, demonstrando conforto e acalento em momentos mais intimistas e agradáveis, em total contraste às cores frias presentes nos corredores escuros e vazios.

Uma outra sequência também me chamou a atenção. A personagem vê, de dentro do seu apartamento e com a câmera acompanhando seu olhar, pessoas entrando no prédio. Conforme o espectador ouve o barulhos de um grupo subindo as escadas e iniciando uma festa no apartamento acima do pertencente a Clara, a câmera acompanha o “barulho” enquanto filma as paredes internas do apartamento onde está.

Em resumo, esses são alguns pontos que me chamaram muito a atenção e me fizeram apreciar a cinematografia cuidadosamente construída para o filme “Aquarius”.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Crítica: 'Aquarius'

"Aquarius" não é um filme sobre o edifício Aquarius, por mais que tudo indique que o prédio será a atração principal do longa de Kleber Mendonça Filho (de "O som ao redor"). É um filme sobre Clara (Sônia Braga, a eterna Gabriela da versão original da novela homônima).

A história acompanha a vida da jornalista aposentada vivida por Braga. Viúva e mãe de três, Clara mora em um apartamento à beira mar, no edifício Aquarius, no Recife, onde criou seus filhos e mantém lembranças de uma vida inteira. A trama principal começa a se desenrolar quando uma construtora chega ao prédio de Clara querendo derrubá-lo e construir um novo edifício no lugar. A empresa consegue adquirir quase todos os apartamentos, menos o dela. Começa então a batalha da personagem de Braga contra a construtora.

Parece ser sobre o Aquarius mesmo, não é? Mas o prédio em si é um reflexo da personagem principal, sendo os episódios que se passam com a construção, interessantes paralelos com os acontecimentos da vida de Clara e com sua personalidade. Esse é um dos motivos porque digo que o filme é sobre ela. Toda a narrativa ajuda a construir a personalidade de Clara ao espectador, mesmo que algumas passagens sejam irrelevantes para a trama principal, mas ainda assim têm seu propósito ao exaltar características da personagem, mesmo que sutilmente. Para os mais impacientes, isso pode ser um problema, pois o filme chega a quase duas horas e meia de projeção, com partes que podem parecer se arrastar, mas nada que a incrível interpretação de Sônia Braga e o carisma de Clara não compensem. Ver a atriz tão à vontade na pele da personagem nos faz querer assistir a mais e acompanhar sua história.

São todos esses detalhes que fazem do roteiro e da direção de Kleber Mendonça Filho uma produção tão poética, trazendo retratos da bruta e dura realidade em que vivemos, como a luta entre classes e a expansão imobiliária agressiva, junto à delicadeza com a qual trata assuntos difíceis, como o câncer e a sexualidade na velhice.


A fotografia a quatro mãos de Pedro Sotero e Fabrício Tadeu (ambos também de "O som ao redor"), é muito bonita e contribui para a poesia do longa, trazendo vários planos abertos, que mostram a arquitetura da cidade, onde prédios antigos se tornam pequenos e ficam comprimidos entre arranha-céus modernos. A própria abertura do filme, com fotos antigas, ajudam a traçar este paralelo com as imagens atuais de Recife, mostradas ao longo do filme. Nos planos mais intimistas, a câmera também passeia e fica à vontade no pequeno apartamento de Clara, sempre em tons claros e quentes, mostrando a paz e o aconchego do refúgio da personagem.

A direção de arte e a cenografia, ambas assinadas por Thales Junqueira (de "Que horas ela volta?") e Juliano Dornelles (repetindo a parceria com o diretor de "O som ao redor"), ganha pontos na reconstrução do apartamento dos anos 1980 com perfeição, e trazem uma nova roupagem ao mesmo lugar dos dias atuais, preservando móveis e objetos centrais que conservam as lembranças e a nostalgia proporcionadas pelo local.

No mais, "Aquarius" é um filme para se apreciar aos poucos, não só acompanhando o universo de sua personagem central, Clara, mas também mergulhando em sua intimidade, e conhecendo cada detalhe, cada pensamento e cada característica de seu exterior e interior.

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Confira as críticas de outros filmes brasileiros que também me conquistaram: a comédia "De pernas para o ar"  e o drama "Salve Geral".
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